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Marcação a mercado é a atualização diária do preço de um título de renda fixa pelo valor que o mercado pagaria por ele hoje. Quando os juros sobem, o preço cai, e seu extrato pode mostrar rendimento negativo. Se você levar o título até o vencimento, essa oscilação desaparece e a taxa contratada é cumprida.
- Juros e preço de títulos andam em direções opostas: juros sobem, preço cai; juros caem, preço sobe.
- Quanto mais longo o título, maior a oscilação. A duration ajuda a medir essa sensibilidade.
- Títulos IPCA+ longos estão entre os mais sensíveis do Tesouro Direto.
- A perda só se concretiza se você vender antes do vencimento.
- Fundos de renda fixa também sofrem marcação a mercado, porque suas carteiras são atualizadas diariamente.
O que é marcação a mercado
Todo título de renda fixa tem um valor no vencimento e uma taxa contratada. Entre a compra e o vencimento, porém, ele pode ser vendido. Para saber quanto vale hoje, é preciso calcular o preço pelo qual outro investidor o compraria, usando as taxas do dia.
Esse cálculo diário é a marcação a mercado. No Tesouro Direto, ela aparece no extrato como valor bruto ou líquido de resgate. Por isso o saldo do seu prefixado ou IPCA+ sobe e desce, mesmo sem nenhuma mudança na taxa que você contratou.
Em termos práticos, a marcação a mercado responde a uma pergunta: se eu vendesse hoje, quanto receberia? Ela não muda o que você receberá no vencimento, apenas o valor de saída antecipada.
Quais investimentos são afetados
- Muito afetados: Tesouro Prefixado e Tesouro IPCA+, especialmente os de vencimento longo, além de debêntures e fundos que investem nesses papéis.
- Pouco afetados: o Tesouro Selic, que oscila muito pouco porque seu rendimento acompanha a taxa do dia.
- Em geral, sem oscilação no extrato: CDBs, LCIs e LCAs mantidos até o vencimento costumam ser exibidos pela curva contratada. Na venda antecipada no mercado secundário, porém, o preço também é negociado.
Marcação a mercado x marcação na curva
A alternativa à marcação a mercado é a marcação na curva. Nela, o saldo cresce todos os dias pela taxa contratada, em linha reta, como se nada acontecesse com os juros. É o que você vê na maioria dos CDBs.
As duas formas convergem no vencimento. A diferença está no caminho: a curva mostra quanto você terá se esperar até o fim; o mercado mostra quanto você teria se saísse agora. Nenhuma das duas está errada, mas só a marcação a mercado revela o risco real de uma venda antecipada.
Por que o preço cai quando os juros sobem
Imagine que você comprou um título prefixado que paga R$ 1.000 em 5 anos, com taxa de 13,76% ao ano. O preço justo hoje é o valor futuro descontado por essa taxa:
Preço = 1.000 ÷ (1,1376)^5 ≈ R$ 524,87
Agora suponha que, no dia seguinte, títulos novos e idênticos passam a pagar 14,76% ao ano. Ninguém aceitaria pagar R$ 524,87 pelo seu título se pode comprar outro que rende mais. Para o seu título render os mesmos 14,76% a quem comprar, o preço precisa cair:
Novo preço = 1.000 ÷ (1,1476)^5 ≈ R$ 502,40
Uma alta de 1 ponto percentual derrubou o preço em cerca de 4,3%. Se a taxa caísse para 12,76%, o preço subiria para cerca de R$ 548,56, um ganho de cerca de 4,5%. É uma gangorra: juros de um lado, preço do outro.
Duration: quanto seu título oscila
A duration é uma medida, em anos, de quanto tempo, em média, você leva para receber o dinheiro do título. Em um título sem cupom, que paga tudo no fim, a duration é igual ao prazo. Em títulos com cupom, é menor, porque parte do dinheiro volta antes.
Na versão simplificada, a duration modificada indica a variação aproximada do preço para cada 1 ponto de mudança na taxa:
Variação do preço ≈ − duration modificada × variação da taxa, em que duration modificada = duration ÷ (1 + taxa).
| Prazo do prefixado (sem cupom, taxa de 13,76%) | Duration modificada | Taxa sobe 1 p.p. | Taxa cai 1 p.p. |
|---|---|---|---|
| 1 ano | cerca de 0,88 | cerca de −0,9% | cerca de +0,9% |
| 2 anos | cerca de 1,76 | cerca de −1,7% | cerca de +1,8% |
| 5 anos | cerca de 4,40 | cerca de −4,3% | cerca de +4,5% |
| 10 anos | cerca de 8,79 | cerca de −8,4% | cerca de +9,2% |
A duration é uma aproximação. Repare que a alta do preço quando os juros caem é um pouco maior que a queda quando sobem. Esse efeito, chamado convexidade, cresce em prazos longos. Para o investidor iniciante, basta guardar a regra: quanto maior a duration, maior a oscilação.
Por que o IPCA+ longo oscila tanto
Os títulos atrelados à inflação costumam ter os vencimentos mais longos do Tesouro Direto, e é o prazo que define a sensibilidade. Veja o efeito de uma mudança de 1 ponto percentual na taxa real de um título IPCA+ sem cupom, partindo de IPCA + 7,37%, taxa próxima à do IPCA+ 2029 no fim de setembro de 2026:
| Prazo (IPCA+ sem cupom, ilustrativo) | Taxa real sobe 1 p.p. | Taxa real cai 1 p.p. |
|---|---|---|
| 3 anos | cerca de −2,7% | cerca de +2,8% |
| 10 anos | cerca de −8,9% | cerca de +9,8% |
| 20 anos | cerca de −16,9% | cerca de +20,6% |
| 30 anos | cerca de −24,3% | cerca de +32,4% |
Um título com juros semestrais e 20 anos de prazo oscila menos, porque os cupons reduzem a duration para cerca de 11 anos. Na mesma simulação, a queda seria de cerca de 9,8% e a alta, de cerca de 11,4%. Ainda assim, é uma variação grande para quem espera estabilidade na renda fixa.
Como ganhar com a marcação a mercado
A oscilação também pode trabalhar a seu favor. Se você compra um título e as taxas caem depois, o preço sobe e você pode vender antes do vencimento com rentabilidade acima da contratada.
Exemplo numérico
Suponha R$ 10.000 em um prefixado de 5 anos a 13,76% ao ano. Dois anos depois, faltando 3 anos para o vencimento:
- Se a taxa de mercado cair para 11,76%: a posição valeria cerca de R$ 13.649, o equivalente a cerca de 16,8% ao ano no período, acima dos 13,76% contratados.
- Se subir para 15,76%: a posição valeria cerca de R$ 12.282, cerca de 10,8% ao ano. Ainda positiva, mas abaixo do contratado.
Os valores são brutos, antes de IR e custódia. Em outubro de 2026, com a Selic em 13,75% após cinco cortes seguidos e o Boletim Focus projetando 12% no fim de 2027, muitos investidores enxergam espaço para queda de taxas. Mas projeções falham, e apostar na marcação a mercado é uma estratégia com risco real de perda no curto prazo.
Quando ignorar a oscilação
Se você comprou um título com um objetivo e pretende mantê-lo até o vencimento, a marcação a mercado é apenas informativa. No vencimento, o Tesouro paga o valor combinado: R$ 1.000 por título no prefixado ou o valor corrigido pela inflação mais a taxa real no IPCA+.
Para poder ignorar a oscilação com tranquilidade, três cuidados ajudam:
- Case o vencimento com o objetivo. Se a meta é para 2029, escolha um título que vence perto disso.
- Tenha reserva de emergência separada. Assim você não precisa vender o título longo em um imprevisto. Veja como montar sua reserva de emergência, que pode ficar no Tesouro Selic.
- Não acompanhe o extrato todo dia. Para quem vai até o vencimento, a variação diária é ruído.
A transparência dos preços está disponível no site do Tesouro Direto, onde você pode consultar as taxas e os preços de compra e venda do dia.
Marcação a mercado em fundos de renda fixa
Fundos de renda fixa são obrigados a marcar seus ativos a mercado diariamente. Por isso, a cota de um fundo que compra títulos prefixados ou IPCA+ pode cair em dias de alta dos juros, mesmo que nenhum título tenha dado calote.
A diferença em relação ao título direto é que o fundo não tem vencimento. Você não pode “esperar até o fim” para eliminar a oscilação. O resultado depende do preço da cota no dia do resgate e da estratégia do gestor.
| Tipo de fundo de renda fixa | Exposição à marcação a mercado |
|---|---|
| Fundos DI ou de curto prazo (pós-fixados) | Baixa |
| Fundos que acompanham índices de prefixados | Média a alta, conforme o prazo médio da carteira |
| Fundos que acompanham índices de títulos IPCA+ (como o IMA-B) | Alta, sobretudo nas versões de prazo longo |
| Fundos de crédito privado | Variável: juros e risco de crédito dos emissores |
Lembre também da tributação: fundos de renda fixa têm come-cotas em maio e novembro (15% para longo prazo e 20% para curto prazo), com complemento pela tabela regressiva no resgate. Para combinar fundos e títulos de forma equilibrada, veja o guia de diversificação de investimentos.
Conclusão
A marcação a mercado explica por que um investimento de renda fixa pode render negativo por alguns dias ou meses. Quando os juros sobem, o preço dos títulos cai; quando descem, o preço sobe. A intensidade depende da duration: títulos longos, especialmente IPCA+, oscilam muito mais.
Se você leva o título até o vencimento, a oscilação não altera o resultado final. Se pode precisar do dinheiro antes, escolha prazos mais curtos ou pós-fixados. E, se quiser ganhar com a queda dos juros, entenda que a mesma gangorra pode jogar contra você.
Perguntas frequentes
O que é marcação a mercado?
É a atualização diária do preço de um título de renda fixa pelo valor que o mercado pagaria por ele naquele dia, com base nas taxas de juros vigentes. Ela mostra quanto você receberia se vendesse antes do vencimento.
Por que meu Tesouro está rendendo negativo?
Porque as taxas de juros de mercado subiram depois da sua compra, e o preço do título caiu para se ajustar. Se você mantiver o título até o vencimento, recebe a rentabilidade contratada.
Eu perco dinheiro com a marcação a mercado?
Só se vender o título enquanto o preço estiver abaixo do valor que você pagou. A perda no extrato é temporária para quem leva o título até o vencimento.
O Tesouro Selic sofre marcação a mercado?
Sofre, mas de forma muito pequena, porque seu rendimento acompanha a Selic diária. Por isso ele é muito usado para a reserva de emergência.
O que é duration?
É o prazo médio, em anos, para receber os fluxos de um título. Quanto maior a duration, mais o preço oscila quando os juros mudam. Em títulos sem cupom, a duration é igual ao prazo até o vencimento.
Fundos de renda fixa podem render negativo?
Sim. Fundos que compram títulos prefixados ou IPCA+ marcam a carteira a mercado diariamente, e a cota pode cair quando os juros sobem. Como o fundo não tem vencimento, não dá para simplesmente esperar o fim do prazo.
Este conteúdo tem caráter educativo e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não garante rentabilidade futura. Dados atualizados em outubro de 2026.


